
As tensões crescentes no Oriente Médio, envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel, começam a levantar preocupações sobre possíveis impactos nas cadeias globais de abastecimento de alimentos. Commodities agrícolas como lácteos, arroz, carne e chá podem enfrentar volatilidade caso o conflito se prolongue e afete rotas estratégicas de comércio internacional.
Desde o final de fevereiro, ataques realizados pelos Estados Unidos e por Israel contra alvos no Irã elevaram significativamente a tensão na região. Autoridades em cidades como Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, chegaram a orientar a população a permanecer em ambientes fechados diante de ataques aéreos e interceptações de mísseis.
Segundo informações divulgadas por autoridades locais, ao menos uma morte foi registrada em uma área residencial nos Emirados Árabes Unidos. No Irã, o número de vítimas já ultrapassa 780 pessoas, além da confirmação de seis baixas militares dos Estados Unidos.
A situação também afetou o transporte internacional. O Aeroporto Internacional de Dubai chegou a suspender voos por tempo indeterminado, enquanto a alta nos preços do petróleo e a volatilidade nos mercados financeiros ampliaram as preocupações com possíveis efeitos na economia global.
Estoques de alimentos seguem estáveis na região
Apesar do cenário de instabilidade, autoridades dos Emirados Árabes Unidos afirmaram que o abastecimento de alimentos no país permanece normal. O governo pediu à população que evite compras excessivas ou comportamento de pânico.
Em comunicado oficial, o Ministério da Economia e Turismo afirmou que os produtos alimentares essenciais continuam disponíveis em quantidade suficiente nos mercados.
De acordo com o governo, o país possui reservas estratégicas amplas e diversificadas, capazes de garantir o fornecimento de alimentos por períodos prolongados, mesmo diante de turbulências geopolíticas.
Ainda assim, especialistas alertam que a situação pode se tornar delicada caso o conflito se prolongue. Muitos países do Oriente Médio dependem fortemente das importações de alimentos, que representam entre 80% e 90% do consumo alimentar em algumas nações da região.
Embora diversos governos estejam investindo em políticas para aumentar a autossuficiência alimentar, esses projetos levam tempo para produzir resultados. Por isso, as cadeias globais de abastecimento continuam sendo essenciais para a segurança alimentar regional.
Escalada do conflito aumenta riscos logísticos
Com o aumento das tensões e sem sinais claros de recuo por parte do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, o Irã tem realizado ataques retaliatórios em diferentes pontos do Oriente Médio.
Entre os países afetados estão Kuwait, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Omã, Qatar e Bahrein, locais onde há presença militar norte-americana.
Essas ações têm provocado interrupções em rotas aéreas e marítimas, elevando o risco de disrupções nas cadeias de transporte internacional de mercadorias.
Possíveis impactos para o mercado de lácteos
O setor global de lácteos também pode sentir os efeitos do conflito. O Oriente Médio é um mercado relevante para exportadores internacionais, especialmente para a Nova Zelândia.
O país exporta cerca de 90% de toda a sua produção de lácteos, e parte significativa desses embarques tem como destino países da região. Segundo dados do Ministério de Assuntos Exteriores e Comércio da Nova Zelândia, as exportações do setor movimentam aproximadamente US$ 1,07 bilhão por ano.
A cooperativa Fonterra, uma das maiores exportadoras de lácteos do mundo, informou que ainda é cedo para medir os impactos do conflito.
Em comunicado, a empresa afirmou estar acostumada a operar em cenários de volatilidade geopolítica e comercial, destacando que a situação atual ainda é imprevisível e diversos cenários podem se concretizar nas próximas semanas.
Arroz, carne e chá também enfrentam incertezas
Outras commodities agrícolas também estão expostas aos riscos logísticos na região.
No caso do arroz, cerca de 25% do arroz basmati exportado pela Índia, equivalente a aproximadamente US$ 1,2 bilhão, tem como destino o Irã. Outros 20% são enviados ao Iraque.
Com o aumento das tensões e riscos no transporte marítimo, os embarques estão praticamente interrompidos, especialmente devido às incertezas envolvendo o Estreito de Hormuz, uma das rotas marítimas mais importantes do mundo.
O setor de carnes também pode ser afetado. Exportações de cordeiro da Austrália e da Nova Zelândia foram suspensas ou redirecionadas para outros mercados.
A New Zealand Meat Industry Association informou que praticamente todas as exportações de carne do país destinadas ao Oriente Médio passam pelo Estreito de Hormuz, colocando milhões de dólares em produtos em risco caso a rota seja interrompida.
O mercado de chá também enfrenta preocupações. Países como Emirados Árabes Unidos, Iraque, Irã e Arábia Saudita estão entre os maiores importadores de chá proveniente da Índia, Sri Lanka, China e Quênia. Caso o conflito se prolongue, exportadores temem queda na demanda e aumento da oferta global.
Petróleo pode amplificar impactos no setor de alimentos
Outro fator crítico é o petróleo. Aproximadamente 20 milhões de barris de petróleo bruto passam diariamente pelo Estreito de Hormuz, tornando a região estratégica para o abastecimento energético mundial.
Qualquer interrupção nesse corredor marítimo pode provocar aumento nos preços do petróleo, impactando diretamente os custos logísticos globais.
Esse efeito tende a se espalhar rapidamente para diferentes cadeias produtivas, incluindo o setor de alimentos e bebidas.
Cenários possíveis para o conflito
Analistas internacionais avaliam dois cenários principais para o desenrolar da crise.
Segundo um economista-chefe do AMP Bank, existe cerca de 60% de probabilidade de que o conflito permaneça limitado, sendo resolvido em um período relativamente curto, possivelmente com uma declaração de vitória por parte dos Estados Unidos.
Por outro lado, há aproximadamente 40% de chance de que o conflito se prolongue, gerando disrupções mais profundas nas cadeias globais de abastecimento, maior envolvimento militar e impactos negativos nos mercados de petróleo e alimentos.
Diante da imprevisibilidade do cenário, especialistas afirmam que o mercado global seguirá atento às movimentações no Oriente Médio. Caso os preços do petróleo e dos combustíveis continuem subindo, o setor de alimentos e bebidas poderá enfrentar custos maiores e novas pressões no comércio internacional.
